domingo, 1 de maio de 2011


A questão do trabalho que tens é tão importante como aquilo que passas, todos os dias de manhã, para continuar a conseguir amar os outros. Sobrevalorizar o coração e entendê-lo como o grande salvador de todas as outras coisas que te acontecem, que te causam desconforto, angústia, na projecção de um prolongamento futuro, não me parece, de todo, uma coisa humana. Assemelha-se a salvar a morte de um filho, com uma nova gravidez. Não existe. Não podes amar bem a tua vida, se não fazes uma coisa que gostas, se não trabalhas numa coisa que gostas ou, melhor, numa coisa que te ensina, ela própria, a gostar disso. Ou então, que te pague o suficiente a outro qualquer nível, e que essa alternativa te substitua a certeza que devias ter dentro da cabeça de que tens uma função séria. A moral sobre os outros, é sempre mais resplandencente. É sempre mais claro, mais transparente, achar as coisas dos outros fáceis de suportar, arranjar-lhe estratégias de desvio do nada. Esse sentimento vigoroso que atravessa a nulidade de não entenderes para que serve isto ou aquilo, e simultaneamente, te impulsiona a dizer, todos os dias, “coisa com coisa”.   Saber para que serve tudo é fundamental. Isto torna-se relativamente difícil, quando ganha os contornos de percurso. A partir do momento em que as situações se repetem, em que não gostas das coisas repetidamente, em que desgostas do que fazes, do que és a fazer o que fazes, ao longo  das oito horas diárias, repensas a tua presença no meio delas e a força que as outras coisas têm de ter na tua vida, para tu suportares aquela. Aqui, faz-se a diferença entre nós e os outros. A força que cada um põe, naquilo que tem. Quando procuras sem saber o quê, e desgostas daquilo que consegues, quando chegas a uma coisa e pensas não é isto, não pode ser isto a vida toda, tudo se torna bem mais misterioso do que a sombra da porta entreaberta.

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