É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça,
e não se entrega, não
e não se entrega, não
Gosto dos brasileiros. Podem dizer o diabo a quatro sobre eles, que eu continuo a defendê-los. A rapariga brasileira que me secou o cabelo hoje tinha um olhar embevecido. As brasileiras, de forma geral, têm um olhar embevecido, como se estivessem sempre em estado de admiração, de oração, sobre alguma imagem sagrada. Esta rapariga teria, se tanto, uns 25 anos, cabelo negro, comprido, vários brincos em cada orelha, um fio ao peito com a letra inicial do nome e um piercing muito feio no umbigo. Um penduricalho cheio de brilhantes em forma de cruz e umas cuecas verdes, que se deixavam observar à medida que me fazia rodar a cabeça. Disse-me então: o seu cabelo é tão lindo. Como aquele jeitinho meloso que a língua brasileira traz a qualquer formulação gramatical. O "tão lindo", dizia respeito ao comprimento do cabelo. A forma desprendida e ingénua com que ela exclamou, verdadeiramente maravilhada a olhar para mim, emocionou-me. Eu disse-lhe: mas o seu está igualmente comprido e parece bastante mais forte que o meu. Eu cá só o uso comprido para andar com ele preso! Rimos as duas e ela lá confessou que a grande meta dela, no que diz respeito aos cabelos, é que ele chega à altura do meu. E disse: um dia lá chegarei. E chama a atenção do colega, dizendo-lhe: olha Rodrigo, assim é que eu queria. Eu acho tão lindo cabelo comprido.. O Rodrigo, brasileiro afeminado, não ligou muito e prosseguiu com a secagem da outra cliente. Eu disse-lhe que gostava mesmo mesmo, era de ter caracóis ao que ela me responde que nunca se está muito contente com o que se tem. E naquele momento, senti que era capaz de me deixar convencer existencialmente por aquela rapariga. Eu já sabia que ela me ia dizer aquilo, que cada um quer o que não tem, mas a “moral” que vem da boca dos brasileiros, não sei porquê, sabe-me sempre a uma moral mais pura do que a que brota do bater no peito das beatas da missa de Domingo.
Já tive colegas brasileiros em várias situações de trabalho. O Wagner, fantástico colega, dizia-me sempre, quando eu ia de folga: bom descanso. Nunca me tinham dito, nem eu tinha nunca ouvido semelhante expressão e achei aquilo fabuloso. Bom descanso para quem ia descansar. Parecia-me perfeito, mais perfeito do que um até quinta. Ao longo dos tempos e depois de privar com mais alguns, comecei a perceber que era comum o desejo de bom descanso para as folgas ou para o fim-de-semana. E agora sou eu própria a desejar bom descanso, quando alguém se ausenta.
A brasileira com quem trabalhei e que tinha a mesma cruz de baptismo que eu (ela com água benta e eu só com o nome), era bailarina. A K. só bebia leite com chocolate e comia pão com manteiga. Não podia engordar muito. Era engraçada, meio ruiva, com muitas sardas pela cara e algumas no pescoço e tinha um sonho tremendo com o bailado. Um dia, mostrou-me umas fotografias que trouxe do Brasil com actuações dela. Na verdade, ela falava muito de dança, mas nunca imaginei que a coisa fosse muito séria. Quando olhei as fotos, mal a reconheci. Lembro-me bem que eram recortes de jornal de espectáculos em que ela participara. Ela olhava para aquilo com uma nostalgia no olhar, que me deixava sem palavras. Chegou cá com o marido, que vinha a trabalho e abandonou, por meses, por anos, a carreira que desejava. Era muito reservada. Na altura fiquei intrigada com tamanho recato, e suspeitei preconceituosamente, que me estaria a enganar. Mas não dava mesmo para enganar. Porque quando um brasileiro diz nossa sobre alguma coisa, é porque o que vem a seguir, é sentido.
Já tive colegas brasileiros em várias situações de trabalho. O Wagner, fantástico colega, dizia-me sempre, quando eu ia de folga: bom descanso. Nunca me tinham dito, nem eu tinha nunca ouvido semelhante expressão e achei aquilo fabuloso. Bom descanso para quem ia descansar. Parecia-me perfeito, mais perfeito do que um até quinta. Ao longo dos tempos e depois de privar com mais alguns, comecei a perceber que era comum o desejo de bom descanso para as folgas ou para o fim-de-semana. E agora sou eu própria a desejar bom descanso, quando alguém se ausenta.
A brasileira com quem trabalhei e que tinha a mesma cruz de baptismo que eu (ela com água benta e eu só com o nome), era bailarina. A K. só bebia leite com chocolate e comia pão com manteiga. Não podia engordar muito. Era engraçada, meio ruiva, com muitas sardas pela cara e algumas no pescoço e tinha um sonho tremendo com o bailado. Um dia, mostrou-me umas fotografias que trouxe do Brasil com actuações dela. Na verdade, ela falava muito de dança, mas nunca imaginei que a coisa fosse muito séria. Quando olhei as fotos, mal a reconheci. Lembro-me bem que eram recortes de jornal de espectáculos em que ela participara. Ela olhava para aquilo com uma nostalgia no olhar, que me deixava sem palavras. Chegou cá com o marido, que vinha a trabalho e abandonou, por meses, por anos, a carreira que desejava. Era muito reservada. Na altura fiquei intrigada com tamanho recato, e suspeitei preconceituosamente, que me estaria a enganar. Mas não dava mesmo para enganar. Porque quando um brasileiro diz nossa sobre alguma coisa, é porque o que vem a seguir, é sentido.
Depois tive um emprego em part-time, onde me cruzei com outro brasileiro e com outra brasileira. A verdade é que eu sempre que posso, me meto com os brasileiros. Ou é por causa das músicas ou dos actores das novelas ou das expressões ou porque os acho tão simpáticos que acabo por não resistir eu própria, a restribuir a simpatia. Ora neste caso, eu cantarolava. E eles riam-se e diziam que eu tinha melhor pronúncia que muitos brasileiros. Ficou prometido que me apurariam o samba, coisa que infelizmente não aconteceu. Boa gente aquela.
Uma noite, quando regressa das aulas, de combóio, a brasileira que sempre entrava na mesma carruagem que eu, ao ver passar o apelidado homem-elefante pela deficiência zoológica que carrega na cara, pergunta-me, em jeito de comentário: santo deus, como é possível a vida ser tão cruel com esse homem.. Lá lhe contei a história que eu própria ouvi contar sobre o caso. Ela demonstrou um tom tão profundamente desgostoso e repetia tão incessantemente a responsabilidade de Deus naquilo, que se torna impossível não ficar a pensar na mão cheia de humanidade que o olhar para o outro pode significar. Chegou a ser constrangedor, porque ela revelou-se francamente chocada. Eu lá lhe disse, na tentativa de aliviar a imagem, que ele conseguia comer e beber, mas apercebi-me que naquele momento, ela baixou a cabeça, mudou a expressão sorridente na qual eu já tinha reparado várias vezes e calou-se. Até amanhã, disse-me, antecipando-se ao meu levantar do banco. Sabia que eu saía naquela paragem. Ela seguiu.
Aprendi com esta música que cadeiras também são ancas.
E que a coisa tem a sua força, lá isso tem.
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Verdades