sábado, 17 de julho de 2010

ao pequeno-almoço

(nota para não escrever)

Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode ainda escrever-se por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, embebeda o espírito libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se então para estar só.. A escrita afasta concretamente  o mundo. Não é o melhor método, ams é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonimso da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, de energia espiritual. O espírito tende a transforma o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.

HH

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